O perigo de uma fé sem posicionamento

Estudos Bíblicos

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O perigo de uma fé sem posicionamento

Texto base: Apocalipse 3:14-22

“E ao anjo da igreja de Laodiceia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:  Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!  Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.
Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas.  Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei até ele, e com ele cearei, e ele comigo. Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono.  Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” 

Introdução:

Vivemos em uma época em que muitas pessoas têm medo de se posicionar. O posicionamento trás consigo consequências que muitas pessoas não estão dispostas a aceitar. Dizer “sim” pode trazer responsabilidades e o dizer “não” pode gerar oposição. Em qualquer situação haverá consequências e um preço a ser pago. O grande problema que hoje as pessoas querem viver sem maiores preocupações, querem benefícios, vantagens e facilidades sem que pra isso elas tenham que se posicionar. Em outras palavras elas preferem permanecer no meio do caminho e se manterem neutras. Só que se manter neutro também trás consigo algum tipo de consequência e a palavra de Deus é clara, o morno (ou não se posicionar) é a pior das escolhas que você pode fazer hoje.

Viver em sociedade requer de nós um posicionamento, ainda mais para os filhos de Deus. O mundo anseia ver em nós a luz de Cristo. A igreja precisa refletir essa luz e fazer a diferença que tanto se espera ver.

Recentemente tivemos em nosso país um novo pleito eleitoral no qual tivemos que escolher dentre tantos candidatos aqueles que melhor irão nos representar em Brasília. Quantos deixaram de se posicionar e simplemente não foram votar? Ou quantos anularam seus votos? A igreja também faz parte desse mundo e devemos nos posicionar politicamente também escolhendo aqueles que possuem princípios e valores semelhantes aos nossos. Sei que para alguns isso pode não parecer importante pois somos “cidadãos do céu”, mas ainda vivemos nesse mundo e enquanto estivermos nele precisamos nos posicionar.

Na igreja não deixa de ser a mesma coisa, muitos só querem ir ao culto, participar como ouvintes e não se envolver com nada, não assumir nenhum compromisso. No trabalho, não querem defender aquilo que é certo quando isso pode lhes custar alguma coisa. Dentro de casa, muitas vezes não querem exercer autoridade, corrigir, ensinar ou estabelecer limites.

E até mesmo na fé, há cristãos que aprenderam a frequentar a igreja sem necessariamente pertencer a Cristo de maneira radical e consciente.

Mas existe um problema com essa postura: Cristo não chamou seus discípulos para uma vida de neutralidade espiritual. A mensagem de Jesus à igreja de Laodiceia continua extremamente atual.

O problema daquela igreja não era que ela tivesse abandonado completamente a religião. Ela tinha igreja, tinha obras, tinha recursos, tinha influência, tinha aparência de sucesso. Mas havia perdido aquilo que realmente importava: uma posição definida diante de Cristo.

A seguir quero trazer uma série de reflexões para identificarmos o que realmente significa se posicionar e os cuidados que devemos ter para que não sejamos cristãos mornos.

1. O GRANDE PERIGO NÃO É APENAS ESTAR ERRADO,  É NÃO SABER DE QUE LADO ESTAMOS

Jesus começa dizendo:

“Conheço as tuas obras…”

Isso é importante. Cristo não está olhando apenas para aquilo que fazemos externamente. Ele olha para aquilo que somos. Laodiceia provavelmente parecia uma igreja bem-sucedida aos olhos humanos. Mas Jesus enxergava algo que as pessoas não conseguiam enxergar. Uma igreja pode impressionar os homens e decepcionar Cristo. 

Podemos ter uma boa imagem social, uma boa posição profissional, dinheiro, influência, conhecimento e até participação religiosa  e ainda assim estarmos espiritualmente mornos. A mornidão é perigosa porque ela produz uma falsa sensação de segurança. O frio sabe que está frio. O quente sabe que está quente, mas o morno pode imaginar que está bem. E talvez essa seja uma das maiores enfermidades espirituais do nosso tempo: o cristão que não está disposto a assumir claramente aquilo em que acredita, mas também não quer abandonar completamente a fé.

Ele fica no meio, não é totalmente do mundo, mas também não vive plenamente para Cristo. Não abandona a igreja, mas também não se entrega completamente a ela. Não rejeita Jesus, mas também não permite que Jesus governe todas as áreas da sua vida.

2. CRISTIANISMO NÃO É APENAS UMA IDENTIDADE, É UMA POSIÇÃO

Jesus disse:

“Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.”
Mateus 12:30

Existe uma diferença entre ter uma identidade cristã e viver uma vida cristã. Identidade é aquilo que dizemos ser. Posicionamento é aquilo que nossas escolhas demonstram que somos. É fácil dizer: “Eu sou cristão.”  A pergunta mais difícil é: O que muda na minha vida porque eu sou cristão?

Muda a maneira como voto? Muda a maneira como trabalho? Muda a maneira como trato meu funcionário? Muda a maneira como trato meu patrão?
Muda a maneira como educo meus filhos? Muda a maneira como trato minha esposa ou meu marido? Muda a maneira como administro meu dinheiro?
Muda a maneira como falo das pessoas? Muda a maneira como lido com a verdade? Muda a maneira como reajo quando ninguém está olhando?
Porque, se a nossa fé não produz posicionamentos concretos, precisamos perguntar se estamos realmente permitindo que Cristo governe nossa vida.

3. O CRISTÃO PRECISA SABER SE POSICIONAR NA SOCIEDADE

Aqui precisamos ter cuidado.  Posicionamento cristão não significa transformar o Evangelho em instrumento de partido político. A Igreja pertence a Cristo. Nenhum partido pertence a Cristo.  Nenhum político é o Messias. Nenhum governante ocupa o trono que pertence a Jesus. O cristão pode ter opiniões políticas diferentes de outro cristão e continuar sendo irmão em Cristo. Mas existe algo que não podemos relativizar:  os princípios do Evangelho.

O cristão precisa saber posicionar-se diante da verdade, da mentira, da corrupção, da injustiça, da violência, da dignidade humana, da responsabilidade, da honestidade e do amor ao próximo.

Não podemos dizer: “Sou cristão, mas nesse assunto minha fé não interfere.”  Se Cristo é Senhor, Ele é Senhor também da nossa consciência. O cristão não precisa ser agressivo. Não precisa ser fanático. Não precisa transformar toda conversa em discussão política, mas precisa ter convicções.

Não devemos confundir mansidão com omissão.  Jesus era manso, mas Jesus também confrontava e a característica do confronto ao longo dos anos foi se perdendo, hoje vivemos em uma sociedade caída e corrompida mas a igreja muitas das vezes falha em confrontar essa sociedade porque se posicionar custa caro.  João Batista era homem de Deus.

Mas João Batista também dizia:

“Não te é lícito…”
Mateus 14:4

Os profetas não foram chamados para agradar o poder. Foram chamados para anunciar a verdade.  Portanto, o cristão deve ter discernimento para não transformar sua fé em militância partidária, mas também não pode usar a neutralidade como desculpa para abandonar seus princípios.

4. NA IGREJA, O CRISTÃO TAMBÉM PRECISA SE POSICIONAR

Existe outro tipo de mornidão.  A pessoa frequenta a igreja, mas não se compromete com a Igreja. Participa do culto, mas não participa da missão. Ouve a Palavra, mas não pratica. Conhece versículos, mas não permite que eles confrontem seu comportamento. Quer as promessas de Deus, mas não quer os mandamentos de Deus. Quer o consolo de Cristo, mas não quer o senhorio de Cristo. Quer salvação, mas não quer discipulado. Esse é um cristianismo sem posicionamento.

Paulo escreveu:

“Sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor.”
1 Coríntios 15:58

Observe: firmes. A vida cristã exige firmeza, não significa arrogância, não significa achar que somos melhores que os outros. Significa saber em quem cremos e quais valores governam nossa vida.

5. NO TRABALHO, O EVANGELHO TAMBÉM PRECISA APARECER

Talvez um dos maiores testes da nossa fé aconteça longe do púlpito. Acontece na segunda-feira. No escritório, na empresa, na fábrica, na reunião, na negociação.  Naquilo que fazemos quando ninguém está vendo.  É possível cantar: “Eu te amo, Jesus” e depois mentir para um cliente.  É possível levantar as mãos no culto e depois humilhar um funcionário. É possível falar sobre prosperidade e explorar alguém.

É possível defender a verdade no púlpito e negociar a mentira durante a semana. Isso é mornidão. O Evangelho precisa atravessar a porta da igreja e entrar no ambiente profissional. Cristo precisa governar o nosso comportamento quando estamos trabalhando.

O cristão precisa poder dizer:

“Eu não faço isso, não porque tenho medo de ser descoberto, mas porque pertenço a Cristo.”

Colossenses 3:23 diz:

“Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor.”

Essa é uma mudança radical de perspectiva. Eu não trabalho apenas para meu chefe. Eu trabalho diante de Deus. Eu não negocio apenas diante de um cliente.  Eu negocio diante de Deus. Eu não administro apenas recursos humanos.  Eu administro aquilo que Deus colocou em minhas mãos.

6. DENTRO DE CASA É ONDE O NOSSO POSICIONAMENTO MAIS PRECISA APARECER

Talvez aqui esteja o maior desafio. Porque é possível parecer cristão na igreja e não ser cristão dentro de casa? Na igreja somos educados. Em casa, somos impacientes. Na igreja falamos sobre amor. Em casa, gritamos. Na igreja falamos sobre perdão. Em casa, guardamos ressentimento. Na igreja falamos sobre família. Em casa, não temos tempo para nossos filhos. Na igreja cantamos sobre Cristo. Em casa, nossa família não consegue enxergar Cristo em nosso comportamento. Isso precisa mudar. O primeiro lugar onde o Evangelho precisa ser visto é dentro de casa. O marido precisa saber se posicionar como homem de Deus. A esposa precisa saber se posicionar como mulher de Deus. Os pais precisam saber se posicionar como pais. E os filhos precisam aprender a respeitar princípios. Não significa autoritarismo. Não significa violência. Não significa controle. Significa responsabilidade.
Significa estabelecer limites. Significa ensinar valores. Significa dizer “sim” quando é sim e “não” quando é não.
Significa não terceirizar completamente a formação espiritual dos filhos para a igreja. A igreja ajuda.
Mas o lar também discipula. A casa é um dos primeiros púlpitos que Deus colocou nas nossas mãos.

7. O PROBLEMA DE LAODICEIA ERA A AUTOSSUFICIÊNCIA

Jesus continua:

“Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma…”
Apocalipse 3:17

Aqui encontramos a raiz do problema.  Laodiceia achava que não precisava de nada e esse talvez seja o maior inimigo do posicionamento espiritual: a autossuficiência. Quando acreditamos que sabemos tudo, deixamos de ouvir. Quando acreditamos que estamos certos em tudo, deixamos de ser corrigidos.  Quando acreditamos que não precisamos de Deus, nossa fé se transforma em aparência.

Jesus responde:

“E não sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”

Que declaração forte!

Eles diziam: “Não precisamos de nada.”

Jesus dizia:

“Vocês não sabem nem a verdadeira condição em que estão.”

Isso é assustador. Podemos estar convencidos de que estamos bem espiritualmente e, ao mesmo tempo, estar distantes de Cristo.

8. POSICIONAMENTO CRISTÃO COMEÇA QUANDO RECONHECEMOS QUE CRISTO É O SENHOR

O versículo 20 talvez seja um dos mais conhecidos de Apocalipse:

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo.”

Observe uma coisa. Jesus está falando com uma igreja, não está falando com pagãos. Ele está falando com pessoas que já tinham uma comunidade religiosa. E mesmo assim Cristo estava do lado de fora.

Isso nos ensina algo extremamente sério: é possível ter religião e deixar Jesus do lado de fora. É possível ter Bíblia e não obedecer à Bíblia. É possível ter culto e não ter comunhão. É possível ter igreja e não ter Cristo no centro.

Por isso, antes de perguntarmos: “De que lado está a sociedade?”

Precisamos perguntar: “De que lado estou eu?”  Antes de querer mudar o Brasil, precisamos permitir que Cristo transforme nosso coração.  Antes de discutir política, precisamos discutir nosso caráter. Antes de apontar o erro dos outros, precisamos permitir que a Palavra confronte nossos próprios erros.

Antes de querer consertar a sociedade, precisamos perguntar: Cristo está governando minha vida?

CONCLUSÃO: “SÊ ZELOSO E ARREPENDE-TE”

Jesus termina sua mensagem dizendo:

“Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.”
Apocalipse 3:19

Observe que a repreensão de Jesus não termina em condenação. Termina em convite.

“Arrepende-te.” Ainda existe esperança. Ainda existe oportunidade. Ainda existe uma porta.

E Jesus diz:

“Eis que estou à porta e bato.”

O mesmo Cristo que confronta é o Cristo que convida.

O mesmo Cristo que denuncia a mornidão oferece restauração.

O mesmo Cristo que revela nossa pobreza oferece verdadeira riqueza.

O mesmo Cristo que mostra nossa cegueira oferece visão.

O mesmo Cristo que confronta nossa nudez oferece cobertura.

A mensagem para nós hoje não é simplesmente: “Tome partido.”

É muito mais profunda: “Tome uma posição diante de Cristo.”

Porque, quando Cristo ocupa o centro da nossa vida, nossos posicionamentos começam a mudar.

Muda nossa política.

Muda nossa ética.

Muda nosso trabalho.

Muda nosso casamento.

Muda nossa paternidade.

Muda nossa maneira de falar.

Muda nossa maneira de tratar o próximo.

Muda nossa maneira de lidar com dinheiro.

Muda nossa maneira de enxergar a sociedade.

Muda nossa maneira de enxergar a Igreja.

Muda tudo.

UMA PERGUNTA PARA TERMINAR

Talvez a pergunta mais importante hoje não seja:

“Sou de esquerda ou de direita?”

Não seja:

“Qual igreja frequento?”

Não seja:

“Qual é minha posição social?”

Não seja:

“O que as pessoas pensam de mim?”

A pergunta é:

“QUEM GOVERNA A MINHA VIDA?”

Porque se Cristo governa minha vida, eu não preciso ser morno. Posso ser firme sem ser arrogante. Posso discordar sem odiar. Posso defender a verdade sem abandonar o amor. Posso ocupar espaços na sociedade sem pertencer aos valores do mundo. Posso estar na política sem transformar política em religião. Posso estar na igreja sem transformar religião em aparência. Posso estar no trabalho sem vender meus princípios. Posso estar dentro de casa e fazer da minha própria família um lugar onde Cristo seja honrado.

E então poderemos ouvir as palavras de Jesus:

“Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono…”
Apocalipse 3:21

A grande questão não é simplesmente de que lado estaremos nas discussões deste mundo.

A grande questão é:  quando Cristo voltar, Ele encontrará em nós uma fé morna, indecisa e conveniente  ou encontrará pessoas que permaneceram fiéis a Ele?

Que Deus nos livre de uma fé que fala muito e se posiciona pouco. Que Deus nos livre de uma religião que tem aparência, mas não tem transformação. E que Ele nos conceda coragem para viver aquilo que professamos.

Nem sempre populares.
Nem sempre compreendidos.
Nem sempre aplaudidos.
Mas sempre fiéis a Cristo.

Amém.

Um forte abraço e até a próxima.

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